LIDERANÇA BÍBLICA X DITADURA ESPIRITUAL
Por James Trimm
“ Apascentai o rebanho de Elohim, que lhes foi confiado, não por necessidade, mas espontaneamente; nem
por ganância suja, mas de todo o coração. Não como senhores do rebanho, mas como um bom exemplo para eles.” (1 Kefá/Pedro 5:2-3)
1 – O SUPERVISOR (“ PASTOR” ) DA CONGREGAÇÃO
O “ supervisor” preside o Conselho de Anciãos. Moshe (Moisés) foi o primeiro supervisor do Corpo do
Messias. No Judaísmo tradicional, o “ supervisor” era chamado de “ nassi” (presidente).
Entre os essênios de Qum’ ran, o “ supervisor” era conhecido como “ mebakar” (inspetor, supervisor)
O ofício do supervisor só é mencionado por nome uma vez nos Ketuvim Netsarim (Novo Testamento) em
Aramaico (nas cartas paulinas, o termo que aparece é sempre “ kashish” , isto é, ancião, onde o grego tem
“ episkopos” /supervisor). O ofício de supervisor é mencionado na passagem abaixo:
“ Cuidai pois de suas almas e de todo o rebanho sobre o qual a Ruach HaKodesh vos constituiu supervisores,
para apascentardes a Kehilá de Elohim, que Ele adquiriu com seu próprio sangue.” (Atos 20:28)
2 – A FUNÇÃO DO LÍDER
Claramente, pelo texto acima e pela descrição do ofício, o termo “ pastor” não se refere a um cargo especial,
ao contrário do uso moderno, mas se refere sim a um supervisor. Ao contrário também da prática de muitos
grupos, as Escrituras deixam bem claro que um supervisor (“ pastor” ) não pode ser senhor sobre a
congregação, como Kefá (Pedro) escreve:
“ Apascentai o rebanho de Elohim, que lhes foi confiado, não por necessidade, mas espontaneamente; nem
por ganância suja, mas de todo o coração. Não como senhores do rebanho, mas como um bom exemplo para eles.” (1 Kefá/Pedro 5:2-3)
A palavra aramaica traduzida aqui como “ necessidade” é “ k’ tira” , que significa “ necessidade,
constrangimento, força ou violência” . Kefá (Pedro) está dizendo que os supervisores (“ pastores” ) não podem liderar a congregação induzindo-a à sua própria vontade. Um supervisor (“ pastor” ) não decide sobre a congregação, ou sobre a vida das pessoas. Kefá (Pedro) é bem claro: não pode agir como senhor sobre a congregação.
Um supervisor deve, pelo contrário, apenas servir à congregação, sendo um bom exemplo de vida para os
demais. Os supervisores não são ditadores sobre as congregações, mas devem se submeter à decisão da
congregação.
3 – E A PROFECIA SE CUMPRE…
Rav. Sha’ ul (Paulo) sabia que o cargo de “ supervisor” poderia facilmente sofrer abusos e se transformar em
uma “ ditadura” daqueles que desejavam se tornar “ senhores do rebalho” e liderarem por “ constrangimento”
ao invés de de se submeter à decisão da congregação.
Não é por acaso que, logo após a menção do cargo de supervisor (vide Atos 20:28), Rav. Sha’ ul (Paulo)
segue dizendo:
“ Eu sei que depois da minha partida entrarão no meio de vós lobos cruéis que não terão pena do rebanho, e que dentre vós mesmos se levantarão homens, falando coisas perversas para desviar os talmidim, para que os sigam.” (Atos 20:29-30) Aqui Rav. Sha’ ul nos avisa que não somente lobos se infiltrariam no rebalho, mas também que os próprios supervisores (“ pastores” ) falariam coisas perversas, fazendo-os se desviarem da Torá, fazendo os talmidim (discípulos) seguirem a eles, ao invés de a Elohim.
4 – A ORIGEM DO MODELO DITATORIAL MODERNO
Inácio, o primeiro supervisor (“ bispo” ) de Antioquia depois da morte de Rav. Sha’ ul (Paulo) cumpriu isto
quando ele enviou uma série de cartas para outros supervisores (“ bispos” ) ao redor do mundo declarando que
os “ bispos” locais eram a autoridade final em suas congregações, contrariando totalmente o ofício de
supervisor visto nas Escrituras.
Nestas cartas, Inácio afirma a diabólica “ autoridade absoluta” do ofício de “ bispo” (supervisor), isto é, o seu próprio ofício, sobre a congregação. Inácio escreve:
“ … ser sujeito ao seu bispo… está de acordo com a vontade de Elohim. Jesus… é enviado pela vontade do Pai; tal como os bispos… são pela vontade de Yeshua ha mashiach.” (Eph. 1:9, 11)
“ … feliz é você que é tão unido a ele [seu bispo local], assim como a ‘ igreja’ é a Yeshua ha mashiach e Yeshua ha mashiach é ao Pai. Vamos tomar cuidado portanto, para que nós não sejamos contra o bispo, para sermos sujeitos a Elohim.
Nós olhamos para o bispo como se olhássemos para o próprio Senhor.” (Eph. 2:1-4)
“ … obedeça o seu bispo… ” (Mag. 1:7)
“ … Seu bispo está presidindo no lugar de Elohim… seja unido ao seu bispo… ” (Mag. 2:5, 7)
“ … ele… que faz qualquer coisa sem o bispo… não é puro em sua consciência… ” (Tral. 2:5)
“ … Não faça nada sem o bispo.” (Phil. 2:14)
“ Certifique-se de que vocês todos sigam ao bispo, tal como Jesus Cristo [seguiu] ao Pai… ” (Smy. 3:1)
5 - CONSENSO UNÂNIME: MASCARANDO UMA DITADURA
A doutrina do “ Consenso Unânime” é um artifício de “ aparente democracia” que alguns dos “ ditadores
espirituais” usam para permitir que eles sejam senhores das ovelhas, sem serem questionados.
Esta doutrina parte do pressuposto de que o Reino de Elohim sempre foi e sempre será conduzido à medida que a Sua vontade seria revelada através de seus “ servos submissos” e que esta vontade seria revelada através de um “ consenso unânime” . Se houver discordância entre os membros, então prevalece a vontade do “ ditador espiritual” como padrão.
Embora aparentemente isto abra espaço para a opinião dos Anciãos, o que acontece é que a vontade do
“ ditador espiritual” sempre prevalece. Se todos concordarem com a vontade dele, então essa vontade
prevalece. Se alguns concordam e outros discordam da vontade dele, então não há “ consenso unânime” . Aí quem decide é o próprio “ ditador espiritual” . Ou seja, sua vontade sempre prevalece. Este é apenas um
exemplo. Existem outros sistemas semelhantes. Uma coisa eles têm em comum: no fim das contas, sempre
prevalece a vontade do “ ditador espiritual” .
Através de um sistema como este, quer idêntico quer com pequenas variações (algumas vezes muito
engenhosas), os “ ditadores espirituais” conseguem ser senhores sobre as ovelhas enquanto dão a falsa
impressão de que governam a partir de um conselho efetivo. Quando na realidade este conselho é apenas uma grande fachada, e não têm peso algum nas decisões do grupo.
Esta doutrina falsa é até bastante eficaz em eliminar o objetivo e o poder o ofício dos Anciãos. A doutrina do“ Consenso Unânime” remove toda a autoridade, bíblica, e o propósito da existência dos Anciãos.
6 - O MODELO BÍBLICO DE ESTRUTURA DE LIDERANÇA
Como sempre, não precisamos reinventar a roda. A Torá nos descreve a vontade do Eterno também para este aspecto da congregação, que protege as ovelhas.
A expressão “ beit din” no hebraico significa “ casa de justiça” e se refere a um conselho de Anciãos. Um “ beit din” resolve disputas civis entre membros da comunidade e determina os padrões de halachá. A halachá é uma jurisprudência da Torá, ou seja, como podemos caminhar em nossa observância da Torá. O “ beit din”governa a comunidade. Quando existe uma disputa ou necessidade de uma decisão, o “ beit din” resolve estas questões.
O estabelecimento de um “ beit din” para cada comunidade de seguidores do Eterno não é opcional, mas sim uma mitsvá (mandamento) encontrada na própria Torá:
“ Juízes e oficiais porão em todas as tuas cidades que ADONAI teu Elohim te der entre as tuas tribos, para
que julguem o povo com juízo de justiça.” (Devarim 16:18)
Nem mesmo Moshe (Moisés) governou a Congregação de Israel sem os Anciãos (vide Shemot / Êxodo
18:13-16. Até Moshe (Moisés) reconheceu que ele não poderia governar a Congregação de Israel sozinho
(Shemot / Êxodo 18:15). Mesmo quando as pessoas vinham a ele pedindo que tomasse decisões, ele não o
fazia sozinho, estabelecendo, ao invés disto, um conselho de Anciãos (Shemot / Êxodo 18:21-22).
7 – VOTAR É NOSSO DEVER
“ Juízes e oficiais porão em todas as tuas cidades que ADONAI teu Elohim te der entre as tuas tribos, para
que julguem o povo com juízo de justiça.” (Devarim 16:18)
Neste ponto, é importante esclarecer que no hebraico Devarim (Deuteronômio) 16:18 é plural, embora
algumas traduções não tragam desta forma. Isto indica portanto que é a comunidade que deve escolher os
anciãos. Veja que D-us estabelece um regime absolutamente justo e democrático.
Portanto, numa comunidade que procura viver a Torá, deve haver espaço para este tipo de votação, e a
comunidade tem por obrigação escolher a liderança.
8 - COMO SABER SE ESTOU SENDO VÍTIMA DE UM DITADOR ESPIRITAL?
Se sua organização é séria, tem um estatuto. Leia esse estatuto. Se o estatuto não estabelece o regime
mencionado acima, então não está no modelo bíblico. O modelo bíblico protege as ovelhas. Sem esse
modelo, e você corre risco de estar debaixo de um ditador espiritual.
Certifique-se de que a liderança não é auto-proclamada, nomeada de forma errônea, nem herdada de família.
Certifique-se de que é uma liderança escolhida pela comunidade. E verifique se os anciãos da congregação
votam. Cuidado com modelos de “ consenso unânime” , que apenas simulam uma votação.
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